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21.08.2018 - 15:20

Clube de Ciências revoluciona EE Teotônio Vilela e pesquisa de aluno é destaque da 70ª SBPC

Segunda reportagem da série "Educação pública de Campo Grande - Professores que inspiram, estudantes que conquistam!" conta a história de professores apaixonados pela educação, que estão transformando seus alunos da periferia da Capital, em jovens cientistas. O protagonismo dos estudantes tem alcançado reconhecimento nas maiores feiras científicas do país
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Um programa que se assemelha à pedagogia por projeto, voltado para a pesquisa, desenvolvido com seriedade, dedicação e entusiasmo pelo aprendizado. Com esses ingredientes fundamentais para uma educação efetiva, professores e alunos da EE Teotônio Vilela têm alcançado resultados extraordinários no dia a dia escolar, e reconhecimento no meio acadêmico.

Iniciado em 2012, atualmente o “Clube de Ciências” conta com a coordenação dos professores Fernando Henrique Dutra Pereira (Química), Carlos Cesar Gonzales de Luna (Geografia), Keila Araújo (Matemática) e Vagner Cleber de Almeida (Biologia). Depois de seis anos de trabalho, alguns alunos que passaram pelo Clube de Ciências já estão na universidade, atualmente, 11 jovens cientistas integram o grupo.

Na FETEC MS 2017 (Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências de MS), três projetos de pesquisa desenvolvidos por alunos do 7º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio foram premiados e qualificados para serem apresentados em outras feiras de ciências nacionais, neste ano.

O primeiro trabalho a sair da escola da periferia de Campo Grande, para figurar entre os destaques de química na 70º Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), realizada de 22 a 28 de julho de 2018, na Universidade Federal de Alagoas, foi elaborado por João Vitor Vieira da Silva, de 17 anos e, atualmente, estudante do 2º ano do Ensino Médio.

A pesquisa “Produção de metano proveniente do biogás, utilizando resíduos da alimentação escolar” foi uma das 1.200 selecionadas para a apresentação de pôsteres e foi classificada entre as 11 melhores da área de química. Entre teses de graduação, mestrado e doutorado, a pesquisa de João Vitor foi a única elaborada por estudante do Ensino Médio e de escola pública a receber Menção Honrosa em química.

“A nossa expectativa era apenas de apresentação, sem pretensão de ser premiado. Fomos para entender como funciona uma feira científica com a dimensão da SBPC”, revela o professor Fernando Henrique, um dos orientadores de João Vitor.


Apoiado pelos professores de química, Fernando Henrique, e de geografia, Carlos Cesar, o menino começou sua pesquisa em 2017, quando estava no 1º ano. Naquele momento, João se interessou pelo projeto do Clube de Ciências e se juntou à colega Isabela Pachego Sandri, que estudava no 3º ano. Eles decidiram que era preciso encontrar uma solução para o desperdício da merenda escolar.

“Nosso objetivo foi encontrar uma maneira de reaproveitar esse alimento. Conversando com os professores, surgiu a ideia do biodigestor. Porque ele é econômico e reaproveita 100% do alimento, para a produção do biogás e também de biofertilizantes”, explica João. Toda sobra de alimento que viraria lixo, passou a ser energia. O gás produzido pelo biodigestor é utilizado pelos pesquisadores no laboratório onde esse e outros estudos são desenvolvidos. A matéria resultante desse processo é transformada em biofertilizante, que enriquece a horta da escola.

Feiras científicas e prêmios


Em 2017, os alunos cientistas da EE Teotônio Vilela começaram a conhecer e se encantar com o universo das feiras científicas. A dedicação foi tanta, que os professores decidiram inscrever todas as pesquisas na FETEC MS. A direção e coordenação pedagógica apoiaram a decisão.

“Quando recebemos a carta de aceite para todas as pesquisas, já ficamos muito felizes. Todos os alunos teriam a oportunidade de viver a experiência de uma feira científica. Aquilo nos deixou muito empolgados”, lembra a coordenadora pedagógica da escola e apoiadora do Clube de Ciências, Edinéia Leite dos Santos.

Não só foram aceitos, como três trabalhos premiados. A pesquisa “Levantamento florístico de Leucaenaleucocephala (Leucena), com análise de dispersão de sementes e avaliação de alelopatia com lacituca sativa var”, realizada pelas alunas Bruna Tavares e Thailenny Dantas Rezende, e orientada pelos professores Vagner de Almeida e Carlos de Luna, ficou em 1º lugar, na categoria Ciências Biológicas. A premiação credenciou o trabalho para participar da MOSTRATEC 2018 (Feira Internacional de Ciências e Tecnologias). Thailenny vai apresentar a 2ª fase da pesquisa em outubro, em Novo Hamburgo-RS.


O 2º lugar da categoria Ciências Sociais da FETEC 2017 foi para o projeto “Capital dos Ipês: entre a busca pela cidade ideal e o lucro do capital”, dos alunos Luana Santos e Matheus Guimarães. Dia 24 de setembro, eles embarcam para o Rio de Janeiro para passar uma semana na Universidade Federal Fluminense, onde apresentarão a atualização do trabalho na Semana do Setembro Verde da UFF. Eles também conquistaram a oportunidade de escrever um livro em conjunto com a PhD Lourdes Brazil e outros autores, além de conhecer as instalações do Centro de Educação Ambiental da UFF.

Os novatos na pesquisa científica, que em 2017 ainda estavam no 7º ano do Ensino Fundamental, também mostraram a densidade do trabalho da EE Teotônio Vilela. O projeto “Resíduos sólidos da construção civil de Campo Grande-MS” ficou em 4º lugar na categoria Júnior. Orientados pela professora Keila e o professor Carlos, os pequenos pesquisadores Ana Júlia Melo, Monique Silva e Renan Willian Rocha Dias, mostraram que a pesquisa não tem idade, desde que a criatividade e a curiosidade das crianças sejam estimuladas e orientadas pelos educadores.

A equipe de comunicação da ACP está acompanhando essa história e toda a trajetória do Clube de Ciências da EE Teotônio Vilela será contada na Revista Expressão, que sai em outubro (Clique aqui e aqui para conhecer as novas pesquisas desenvolvidas). As atualizações dos trabalhos e os novos estudos já estão inscritos na FETEC MS 2018. São seis pesquisas no total.

A descoberta da SBPC


João Vitor fez a estreia dos cientistas do Teotônio Vilela em feiras nacionais. Os dois dias e meio de viagem de ônibus, somados a cada sacrifício e puxão de orelha dos professores, valeram muito à pena pela experiência que viveu durante uma semana, em Maceió, a capital alagoana que sediou a 70ª edição da SPBC. Quem afirma isso, categoricamente, é o jovem cientista.

“Mudou meu ponto de vista. Passei a ver os professores com outros olhos. Entender melhor suas cobranças. Porque eles acreditam em nós. Se nós nunca acreditarmos no que somos capazes, e muitas vezes não acreditamos, nunca vamos chegar numa SBPC. Os professores nos incentivando, acreditando no nosso potencial, nos fazem ir além. Quando você tem seu projeto apresentado numa feira como essa, você entende exatamente o papel dos professores nisso. Eu percebi que a educação vale muito à pena. Hoje eu tenho vontade de ser professor”, revela o menino.